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Sobre senadores e rendeiros

Será o caso de sugerir, como fez Keynes (que era um liberal, não um socialista e muito menos um bolchevista), a “eutanásia dos rendeiros”?

Ao Eduardo e ao João Ferro Rodrigues

Diplomata e escritor

Entre nós, os políticos quando envelhecem adquirem um estatuto que, talvez por termos perdido no século passado a tradição bicamaral, costumamos designar como de “senador”. Nessa qualidade são ouvidos e com essa aura são considerados. Retirados da política ativa e dos seus compromissos, pensamo-los dotados da sabedoria que a tradição confere à velhice (na tradição medieval a senectus , velhice quente e lúcida, traz consigo a riqueza da experiência, enquanto a decrepitas , velhice fria ou segunda velhice, é o regresso ao balbuciar da infância). Platão, na República, enaltece assim, esta transmissão entre gerações: “Pois eu gosto de conversar com os velhos. Como eles foram à frente de nós na estrada que teremos de percorrer, é dever deles informar-nos se essa estrada é rude e penosa ou agradável e fácil no seu trajeto.”

Em sentido oposto, Keynes alertou-nos para a propensão para o erro que advém de realidades novas serem analisadas por pensadores e decisores imbuídos das ideias adquiridas nos seus anos de formação, que querem assim resolver problemas novos com soluções adequadas a um outro tempo. A extrema aceleração do progresso tecnológico era já bem sentida no seu tempo. Num ensaio paradoxalmente otimista em plena depressão, datado de 1930 (Economic Possibilities for our Grandchildren), Keynes escrevia que estávamos então sofrendo, “não do reumatismo da velhice, mas das dores de crescimento de uma nova idade”. A rapidez dos progressos tecnológicos tornava-nos cegos aos verdadeiros problemas a enfrentar, às verdadeiras perspetivas a abrir. Como dizia Gramsci, “o velho tarda a morrer, o novo tarda a surgir”.

O otimismo de Keynes vai ao encontro da ideia de Marx que “a humanidade só se coloca os problemas que pode resolver”, mas ao mesmo tempo alerta-nos para o risco de a carência de um pensamento inovador e capaz de acompanhar as mudanças do seu tempo vir congelar o nosso pensamento, paralisar as nossas decisões e tornar mais dolorosa a transição.

Com efeito, a formação das gerações decisoras fica consolidada pelo menos 20 a 30 anos antes de assumirem responsabilidades maiores (salvo casos de precocidade muito limitados). A aceleração da mudança das sociedades faz-se no mundo globalizado de hoje a um ritmo inimaginável pela geração de Keynes. Claro que nós todos evoluímos e acompanhamos, melhor ou pior, a mudança dos tempos: mas os quadros de base da nossa formação permanecem e tutelam, para o melhor e para o pior, o nosso pensamento e a nossa ação.

Não quer isso dizer que os mais novos devam deixar de ouvir os senadores, já que a estrada que vão enfrentar é tão diferente da que eles encontraram: permanece em todos nós o essencial, o sentido do humano e do bem comum, a ética e os valores que fundam a convivência. Mas ouvir esse saber não é quedar-se no conforto intelectual de um pensamento fechado, avesso à mudança e à novidade, preso só aos pressupostos do passado, apresente-se ele como liberal ou como social: porque tal atitude redunda apenas em perda de lucidez e, em lugar da senectus , teremos então a decrepitas .

E quando lemos no mesmo ensaio otimista Keynes prever que “the love of money as a possession – as distinguished from the love of money as a means to the enjoyments and realities of life – will be recognized for what it is, a somewhat disgusting morbity” e consideramos a realidade que temos à nossa volta, percorre-nos um arrepio de susto, porque vemos alastrar e prevalecer na economia mundial, não os que usam o dinheiro para investir na criação de riqueza, mas os que amam o dinheiro pela sua exclusiva posse e capacidade de multiplicação, mesmo que à custa da economia produtiva e da própria sobrevivência da espécie humana.

Será o caso de sugerir, como fez Keynes (que era um liberal, não um socialista e muito menos um bolchevista), a “eutanásia dos rendeiros”?

Ao Eduardo e ao João Ferro Rodrigues

Diplomata e escritor